Do sonho à realidade: a arte de se tornar um cidadão
13/03/2009 18:54h
Quinta edição do campanha Ação de Cidadania de Registro Tardio acontece neste sábado, em Porto Alegre, e beneficia crianças e adolescentes sem registro de nascimento.
O caminho percorrido da Restinga Velha até o 2º Cartório do Registro Civil, em Porto Alegre, feito durante esta sexta-feira (13), foi longo, mas não maior que a vontade da família César conquistar um direito inerente à cidadania: o de existir.
Logo na chegada, os passos tímidos do casal Adão Jesus César de César, 54, e Maria Helena da Costa, 46, contrastavam com a obsessão de ambos em poder ajudar os filhos a ter um destino diferente do que a vida reservara para eles. Rodrigo da Costa César, 12 anos, parecia entender o recado. Educado e aparentando um semblante calmo, não desgrudou em nenhum instante dos pais. Apesar da pouca idade, era como se precisasse orientar. O brinco na orelha direita e o boné preto, já gasto, sinalizavam sua personalidade.
Mesmo sem ser o irmão mais velho em idade, o jovem conquistava o posto aos poucos, com atitudes. “Quero este papel para poder estudar e ser alguém”, sentenciava enquanto segurava, com uma mão, a carteira de identidade do pai e, com a outra, a mão do seu Adão.
Rodrigo Costa César é irmão de João Pedro César, de 8 anos, e Rosa Maria César, de 6. O mais velho, Alessandro, 16, era o único dos filhos que possuía certidão de nascimento e, naquele momento, trabalhava para aumentar a renda da família que sobrevive todos os meses com o salário mínimo conquistado com o suor diário de Adão. O catador acorda às 5h30min da manhã para recolher, nas ruas da Capital, latas, papéis e garrafas PET. Por vezes, conta com a ajuda de Rodrigo.
“Não quero que eles cheguem com a minha idade fazendo o que faço e somente sabendo assinar o nome. Com essas certidões posso fazer a matrícula dos três no colégio Vicente da Fontoura, perto da nossa casa. Só não vou lá amanhã porque é sábado. De segunda não passa,” disse, esperançoso.
A peregrinação da família César começou em novembro do ano passado, quando a OAB/RS promoveu, por intermédio da Comissão Especial da Criança e do Adolescente, a 4ª Edição do Mutirão da Cidadania. No evento, souberam da importância dos cidadãos terem seus direitos civis resguardados, por meio do documento oficial.
A vice-presidente da comissão, Alda Menine, abraçou a causa em nome da instituição para efetivar o registro oficial dos três jovens.
A dificuldade, a partir de então, era localizar o registro da mãe deles, Maria Helena da Costa, natural do município de Salvador do Sul e analfabeta. Segundo a dona de casa, nunca ninguém havia feito sua inclusão oficial.
Alda Menine fez uma ampla pesquisa na base de dados dos cartórios do Rio Grande do Sul para que os jovens fossem registrados com o nome da mãe. Conseguiu êxito.
“Hoje, estamos aqui, depois de muito esforço por parte da OAB/RS, que ajudou diretamente em todo o processo”, exclamou sem esconder a felicidade ao cumprir sua missão.
Reunidos, os cinco integrantes da família ouviam atentamente a leitura do documento, feito pela oficial do cartório, que instrumentalizava a partir de então a busca efetiva por um futuro mais justo.
O sonho dos irmãos, Rodrigo e João Pedro, de se tornarem médicos veterinários ficava mais próximo da realidade.
13/03/2009 18:54h
